28.10.15

Job for the girl

Já perdi a conta ao número de entrevistas de emprego a que fui. Ando nisto, mais coisa menos coisa, desde o ano de 1700 AC. Os processos de recrutamento são case studies que, um dia, espero reunir numa obra ao melhor estilo dos livros de auto-ajuda, segredos e qualquer coisa for the dummies.

 

Começando pelos recursos humanos, tenho para mim que padecem de um mal comum: incumprimento da palavra. Epá, não gosto disso. “Em seguida, vou enviar um email a formalizar a data da entrevista, o local e o diabo a sete”. “Darei feedback sobre o andamento do processo até ao final da semana, até lá aguenta e não chora”. E depois, nem água vai nem água vem. Lá começam os emails e os telefonemas de stalking.

 

Quem nunca foi alvo de um erro de casting, que levante o dedo. Estava eu de canudo na mão, à procura de um estágio curricular como Copywriter, ou algo do género, e sou convidada a ter uma entrevista para o cargo de Direcção de Arte. Sénior.

 

Anos mais tarde, um anúncio publicado no blog Carga de Trabalhos (para quem não sabe, montra de empregos na área da comunicação), leva-me a uma mega casa em Oeiras, propriedade de uma figura conhecida da nossa praça. À entrada, a recepcionista pede-me dados pessoais (normal) e a hora e local do meu nascimento (certo), sacando muito prontamente um print da xerox. O meu mapa astral, pois claro. Super relevante para a função, não estivesse a senhora VIP à procura de alguém, e cito, “que saiba fazer de tudo um pouco, desde uma limpeza nos servidores até uma limpeza espiritual”. Adiante.

 

Os tempos de espera entre a primeira entrevista (de triagem), segunda (de grupo, com as clássicas dinâmicas Perdidos na Ilha/Lua/Marte, riscar o que não interessa) e terceira (individual), podem ser desesperantes, causando um desgaste absurdo.

 

No momento das entrevistas, tento sempre ser fiel a mim própria. Tenho noção que naqueles breves minutos, temos que vender a nossa pessoa, provar por A mais B que somos o candidato ideal para aquela vaga. Como é óbvio, há uma teatralização e uma mentira inerentes. Ponto. “Saí do meu último emprego porque os meus chefes eram uns incompetentes, uns pequenos parasitas”. “Estou aqui super empolgada para ganhar estes 500 euros, upa upa, nem sei que faça com tanto dinheiro”. Naturalmente que há filtros que têm de ser utilizados e que o Síndrome de Tourette deverá ficar quietinho. Contudo, tento ser o mais fiel possível a tudo aquilo que faz de mim Andreia e não Maria.

 

Quando a Andreia é rejeitada, é lixado, pois claro. Se concorri à vaga é porque preciso de trabalho, de melhores condições salariais, de uma mudança. Há expectativas e, em momentos de maior fragilidade, a rejeição pode levantar inúmeras questões. Será que falei de mais, de menos? Será que não mostrei entusiasmo, que passei insegurança? Será que deveria ter vestido outra coisa, que o cabelo estava desalinhado, que o fond de teint não estava bem espalhado?

 

Porém, acredito piamente que todas as rejeições me empurram para algo melhor. Até hoje, esta máxima não me desilude.

 

Quando a Andreia é escolhida, é uma sensação fantástica. E, hoje, estamos assim.

 

publicado por ARA às 15:09
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13 comentários:
De Só entre nós - she a 28de Outubro de 2015 às 18:47
Adorei o post! Felizmente nunca tive de passar por uma entrevista de emprego, mas estas palavras espelham bem o quão duro pode ser este processo. E, já agora, parabéns!
De ARA a 29de Outubro de 2015 às 10:57
Muito obrigada pelo feedback. Pode ser duro, sim, mas não há que temer! O que não mata, torna-nos mais durões :)
De Tralhas a 28de Outubro de 2015 às 21:21
Para mim a do mapa astral bate tudo ahahaha
De ARA a 29de Outubro de 2015 às 10:57
E o mais engraçado é que aconteceu mesmo. Facto real :D
De Just_Smile a 28de Outubro de 2015 às 22:12
Como me revejo nas tuas palavras! Já tive cada aventura...
De ARA a 29de Outubro de 2015 às 10:58
Imagino que não esteja só nesta demanda :)
De Anti-Social a 28de Outubro de 2015 às 22:16
Opá, muito bom! Fizeste-me recordar alguns momentos do baú, entrevistas hilariantes (eu armada em fina a dizer à recrutadora que menos de mil euros nem pensar!) e deprimentes (como não conseguir disfarçar o ar de desespero quando quase no final da entrevista me dizem que o "gabinete" em questão é numa cave sem janelas). Mapa astral ainda não aconteceu, mas já trabalhei numa equipa em que éramos 7 + chefe e 3 tínhamos a mesma data de nascimento, talvez não por acaso.
De ARA a 29de Outubro de 2015 às 11:00
Obrigada pelo comentário. É bom saber que arranquei alguns sorrisos de quem já passou pelo mesmo. Acima de tudo, verificar que cá continuamos, vivas, com capacidade para olhar atrás e rir de todos os momentos menos positivos pelos quais passámos. E para a frente é que é caminho. Mapas astrais à parte :D
De Mi a 28de Outubro de 2015 às 23:55
E, depois, existem também as entrevistas em que os recrutadores quase não nos fazem perguntas relevantes, pois estão mais preocupados em convencer-nos a entrar para a Empresa: "porque é um conceito diferente! Temos projectos para o futuro sensacionais! Oferecemos comissões se fizermos um milhão de euros ao fim do mês!"
Existem também os recrutadores do outro extremo que perguntam: "tem a certeza que quer um trabalho com um horário das 16H00-24H00?".
Parabéns pelo destaque! :)
De ARA a 29de Outubro de 2015 às 11:01
Muito obrigada pelo comentário! Por acaso, nunca tive esse tipo de entrevista que descreves. Ele há com cada um :D
De Pois é... a 31de Outubro de 2015 às 11:57
Em relação a este assunto, já passei por situações tão caricatas e absurdas, que davam um livro mas de humor do mais fino ao sarcástico.
Muito atura quem precisa...
De ARA a 2de Novembro de 2015 às 12:06
Mesmo a sério. Venha de lá esse livro :)
De Pois é... a 2de Novembro de 2015 às 19:25
Olhe que... [:<]

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