4.11.15

Emprego de sonho. Ou então não.

 

Na senda das minhas aventuras profissionais, ou pouco, há uma que contada ninguém acredita. Há que admitir, sem vergonhas ou pruridos, esta é mesmo pouco profissional. Cá vai: em Agosto de 2011, trabalhei 20 dias úteis para receber nada mais, nada menos, do que 12 euros. Verdade. Essa pequena fortuna deu para, imagine-se, aviar uma receita na farmácia. Maravilha.

 

Na época, andava à procura de um novo rumo para a minha vida. Tinha ficado sem trabalho há pouco tempo, mantinha alguns biscates e estava a ajudar uma amiga freelancer. Todos os dias, procurava emprego nos lugares do costume: Net-Empregos, Sapo Empregos, Carga de Trabalhos e, igualmente, nos sites das incontornáveis empresas de outsourcing.

 

Um dia, depois de tantos sem contactos, lá toca o telefone com a marcação de entrevista para essa mesma tarde, num escritório algures na Avenida Almirante Reis. Tinha respondido ao anúncio cinco minutos antes. Achei aquela rapidez deveras refrescante e muito bom indicador. Hoje, sei que a rapidez era apenas desespero e que o indicador era um grande cheiro a esturro.

 

Sem nada a perder, lá fui eu. O anúncio pedia um gestor de clientes para um site de serviços. O projecto seria recente, em expansão. Procuravam alguém com gosto por comunicação e, idealmente, com experiência na área. Pareceu-me adequado.

 

As instalações funcionavam dentro do escritório de uma advogada, que foi quem me recebeu e pediu que aguardasse pelo responsável.  Em parte, confesso que isso até me deixou aliviada. “Não deve haver aqui aldrabice, já que estamos paredes meias com uma profissional do Direito”. Ingénua.

 

A primeira impressão do senhor não foi a melhor. Havia ali qualquer coisa que não me inspirava confiança mas, como sempre, dei o benefício da dúvida. Ao fim de 10 minutos (e talvez esteja a exagerar), estava convencida de que aquele era o meu emprego de sonho e de que aquele homem ia levar-me ao fogo do inferno.

 

O facto de, inicialmente, não haver contrato ou recibos, e do valor do salário ser variável, baseado num esquema manhoso de comissões, era irrelevante. Detalhes.  

 

É claro que isto correu mal. O conceito do projecto até era engraçado. Contudo, suspeito que os mentores da coisa só frequentaram o curso de Empreendedorismo até ao tema “Parir uma ideia”, que é como quem diz, foram apenas à aula de apresentação. Mas isso não me importava. Tinha conhecido o tipo mais atraente, manipulador e sedutor de todos os tempos. E estava completamente apaixonada. Não dormia, não comia, tremia, suava em bica. Tristeza.

 

Nunca me foi tão fácil ir trabalhar como naquele mês de Agosto. Eu chegava, fazia um ou dois telefonemas, o tipo vinha para o meu lado conversar. Falava da ex-mulher, dos filhos, dos interesses, dos restaurantes da moda, de música, de horóscopo e tarot, de tatuagens. O tipo era Doutorado em Clichés para Engatar Miúdas, o que, lá está, compensava a pouca frequência no curso de Empreendedorismo. Na vida, há que estabelecer prioridades.

 

Depois começaram os convites, rapidamente retirados. Primeiro para um passeio de mota, depois uma ida à praia e, finalmente, um jantar. E, assim, o tipo atirava-me corda para me manter ali mais uns tempos. Eu continuava a procurar trabalho e já tinha definido manter-me ali até e apenas ao final do mês. Mas queria ver até onde esticava a corda.

 

Perto do deadline, uma cena de ciúmes, protagonizada pela advogada (a dona do escritório, lembram-se?), fez cair a máscara. Aproveitando a ausência do tipo, a senhora entra na sala onde eu trabalhava (coisa que nunca tinha feito) e diz-me que tem ouvido coisas muito boas a meu respeito. Menciona que, ainda na véspera, enquanto jantava com o seu namorado num sítio da moda, ela comentava que eu deveria aproveitar as minhas capacidades e procurar outro emprego, bem longe dali. 

 

E, de repente, tudo fez sentido. A namorada emprestava parte do escritório, cost free, para o negócio (pouco) efervescente. Na ausência dela, o namorado passava os dias a fingir que trabalhava, enquanto seduzia a sua colaboradora. E assim se divertiam.

 

Nesse mesmo dia, fui embora. Eu, 12 euros e um coração partido.

 

Nota: a parte boa da história é que, nesse mês, emagreci quatro quilos. Estoicamente, conseguir enfiar-me no vestido que levaria ao casamento de uma amiga. Obrigada cretino!

publicado por ARA às 15:49
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2 comentários:
De CC a 4de Novembro de 2015 às 17:47
Lembro-me tão bem dessa aventura...
Meu querido mês de Agosto :P
CC
De ARA a 5de Novembro de 2015 às 20:57
Mesmo a sério CC :D Beijo*

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